Brincos ultrarromântico
- Pancália

- 3 de fev. de 2025
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Atualizado: há 6 dias
Até que ponto o belo resiste sem se tornar ornamento vazio? O ultrarromantismo, na literatura e na arte, nunca foi uma celebração ingênua da paixão ou da melancolia ornamental. Em Álvares de Azevedo, Goethe ou Musset, a estética não se dobra à previsibilidade do encanto, mas desafia, corrompe e expõe as entranhas daquilo que se convencionou chamar de sublime. Há uma recusa à beleza fácil, uma fratura que interrompe qualquer ilusão de perfeição.

O par de brincos ultrarromântico não se constrói sobre um ideal inabalável de harmonia, mas sobre a provocação que emerge da dissonância. Minuciosamente esculpidos à mão, cada detalhe da peça subverte o conforto visual. As pérolas claras, quase perfeitas, orbitam uma pérola negra irregular, não em um equilíbrio, mas em um atrito. A centralidade dessa escuridão não é um capricho estético, mas um eixo de deslocamento, uma fissura que desafia a ordem esperada.
O coração, desgastado e denso, rejeita a delicadeza trivial. Ele não simboliza um amor idealizado, mas sim um tempo que insiste em se manifestar na matéria, sem polimento, sem apelo ao sentimentalismo fácil.
A autoralidade dessa peça está na recusa ao adorno óbvio. Exuberante, talvez excessiva, sua existência se afirma na tensão entre a presença e a ruína. É romântica, sim, mas não pelo devaneio açucarado da paixão, e sim por sua entrega ao que é incontornável: a recusa em ser apenas belo.






